BRINCANDO E APRENDENDO

Brincando e aprendendo

"É possível descobrir mais sobre uma pessoa em uma hora de brincadeira
do que em um ano de conversa" 

Platão


Brincar desenvolve na criança a criatividade, a imaginação e a capacidade de se relacionar com o outro (Foto everystockphoto)O artigo 31 da Declaração Universal dos Direitos da Criança (aprovada na Assembléia Geral das Nações Unidas em 1959) reconhece o "direito da criança ao descanso e ao lazer, ao divertimento e às atividades recreativas próprias da idade, bem como à livre participação na vida cultural e artística". Assegura ainda que "os Estados Partes respeitarão e promoverão o direito da criança de participar plenamente da vida cultural e artística e encorajarão a criação de oportunidades adequadas, em condições de igualdade, para que participem da vida cultural, artística, recreativa e de lazer".

O Estatuto da Criança e do Adolescente também prevê esse direito de brincar, no artigo 15, que estabelece que: "A criança e o adolescente têm direito à liberdade, ao respeito e à dignidade como pessoas humanas em processo de desenvolvimento e como sujeitos de direitos civis, humanos e sociais garantidos na Constituição e nas leis". O artigo seguinte (16) menciona, entre os aspectos que compõem esse direito à liberdade, o direito a "brincar, praticar esportes e divertir-se".

Embora garantido em dispositivos nacionais e internacionais, o direito de brincar de crianças e adolescentes nem sempre é garantido na prática; seja pelos pais, em casa, seja pelos professores, nas escolas.

Uma pesquisa encomendada pela Unilever à empresa de pesquisa de mercado Ipsos investigou uma ampla parcela da população brasileira, entrevistando 1014 pais de todas as classes sociais, com filhos entre 6 e 12 anos, durante o ano de 2006. "Os resultados apontam para a diminuição do brincar da criança brasileira na atualidade, o que é preocupante se pensarmos no papel do brincar como um dos indicadores de bem-estar infantil, ao lado do sono, higiene e alimentação", afirma a pedagoga Tânia Ramos Fortuna, que dirige o Programa de Extensão Universitária "Quem quer brincar?", na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Falta informação sobre os benefícios do brincar, sobre a importância das brincadeiras no desenvolvimento intelectual e emocional das crianças. "O brincar vai aperfeiçoando as competências cerebrais da criança e, por outro lado, favorece a vinculação afetiva com os outros seres que rodeiam a criança, sejam outras crianças, sejam adultos. O brincar é o instrumento, porque ele serve tanto para o desenvolvimento interior como exterior, isto é, das habilidades sociais", explica a presidente da Associação Brasileira pela Direito de Brincar (IPA Brasil), Marilena Flores Martins, que lançou recentemente o guia "Brincar é Preciso" (Ed. Evoluir Cultural).

A pesquisa da Ipsos mostrou ainda que a maioria das crianças brinca na própria casa e no quarto. O terceiro lugar mais citado é a escola, daí a sua importância enquanto espaço privilegiado para o brincar. O problema é que os momentos reservados para as brincadeiras na escola estão cada vez mais restritos, uma vez que eles não são compreendidos como essenciais para o desenvolvimento dessas crianças.

"Hoje se dá maior importância às atividades intraclasse, porque se acredita que as brincadeiras são algo para o tempo ocioso. Como o tempo ocioso está cada vez menor, então, não se brinca", conclui Marilena.

"Nos raros momentos em que são propostos, são separados rigidamente das atividades escolares, como o ‘canto' dos brinquedos ou o ‘dia do brinquedo' - e, assim mesmo, apenas nas escolas infantis, pois nas classes de ensino fundamental estas alternativas são abominadas, já que os alunos estão ali para ‘aprender, não para brincar'", acredita Tânia.

Essa desvalorização do brincar está relacionada à formação dos educadores, que não são conscientizados para importância da atividade, inclusive no processo de alfabetização das crianças. Pressionados a cumprir metas e apresentar resultados em avaliações externas, os professores temem abrir espaço para as brincadeiras em detrimentos das lições no papel.

"É na brincadeira que a criança consegue se centrar, elaborar as suas questões. E ela precisa estar assim, inteira, para conseguir se alfabetizar. Se ela não teve espaço para elaborar, para se expandir, como pode estar pronta para se alfabetizar?", questiona Maria Lúcia Medeiros, coordenadora do "Projeto Brincar", uma iniciativa da Fundação Volkswagen, que conta com a coordenação técnica do Cenpec.

Na opinião de Tânia, que ministra atividades de formação de professores voltadas para a valorização das brincadeiras na educação, para que brincar e aprender não sejam entendidos como momentos distintos, é preciso que os educadores sejam preparados para isso.

"A abordagem lúdica da educação supõe preparação específica, na qual vivência e observação de brincadeiras se combinam com o estudo teórico sobre o brincar, pois só assim a brincadeira pode ser guindada ao justo lugar a que tem direito na escola e em nossa vida".

Já a educadora Adriana Friedmann, autora de diversos livros sobre o tema, como "O brincar no cotidiano da criança" (Ed. Moderna, 2006), enfatiza a importância dos momentos de prática nessas formações. "Os professores não 'confiam' no brincar como um dos meios potenciais de aprendizagem. Para que esta confiança se estabeleça, o caminho mais importante passa pela formação continuada que não pode ficar restrita ao estudo teórico, mas deve ser complementada com as vivências que inexistem na maior parte dos cursos de formação. Sem vivências que possam enriquecer as teorias e autores apresentados, através da reflexão, não há como os professores se apropriarem do brincar como caminho educacional", destaca.

Papel do educador

Crianças da EMEI Cacilda Caputo, em Bebedouro (SP) (Foto cedida por Giselle Gallo)Compreender a importância do brincar passa não só pela criação de tempos e espaços para as brincadeiras, mas também pelo entendimento de que o educador desempenha papel fundamental nesses momentos.

É importante ressaltar aí que o brincar espontâneo, dirigido pela criança, já tem valor em si. É nas brincadeiras que ela exercita a imaginação e a criatividade, além de aprender a se relacionar com outras crianças.

"Por trás do brincar há inúmeras mensagens que falam do ser e do estado de cada indivíduo, das suas emoções, das suas vivências, medos, valores, formas de ver o mundo e do seu estado de desenvolvimentos físico, mental e emocional", explica Adriana.

Por isso, é importante que o professor utilize esses momentos para observação.

"Se existe a preocupação de se ajudar no desenvolvimento daquela criança, é esse o momento de observar as dificuldades que ela apresenta, de relacionamento, de lidar com a frustração quando perde o jogo, essa questão do controle das emoções, da tristeza, da raiva... É o momento certo, no qual a criança está ali desnudada, inteira colocada no brincar", enfatiza Marilena.

"O educador não pode aproveitar a "hora do brinquedo" para realizar outras atividades. Pelo contrário. Em nenhum momento da rotina na escola ele deve estar tão inteiro e ser tão rigoroso - no sentido de atento aos alunos e aos seus próprios conhecimentos e sentimentos - quanto nesta hora", reforça Tânia.

Alguns especialistas acreditam que o professor pode ainda desempenhar papel ainda mais ativo, utilizando as brincadeiras como instrumento pedagógico. Pode propor brincadeiras que permitam trabalhar determinados conteúdos ou que desenvolvam determinadas habilidades. Pode organizar o espaço de modo a propiciar determinadas brincadeiras, oferecer diferentes materiais de acordo com o desenvolvimento da criança.

O educador pode ir além, participando das brincadeiras, desde que aceito pelas crianças. Não há uma medida certa sobre qual o limite de interferência do educador, mas a idéia é que ele se desarme, mergulhe na brincadeira e renuncie ao controle, de modo a não coibir a imaginação e a criatividade da criança.

Vale ressaltar ainda que é possível lançar mão do brincar para ensinar, mas o tempo dedicado a ele não pode ser utilizado integralmente com esse fim. É preciso que as crianças também possam brincar livremente.

Para Adriana, gradativamente, vem havendo um processo de retomada do brincar nas escolas, motivado pelas "inquietações das crianças e percepções dos professores, por um boom nas pesquisas e publicações na área do brincar" e também pela recomendação do brincar nos PCNs. Mas adverte: "O grande perigo, porém, é a pedagogização deste brincar, uma excessiva instrumentalização de uma atividade que deveria ser respeitada como sendo, ao mesmo tempo, da natureza das crianças e construída e ressignificada por elas, necessária para a convivência e o desenvolvimento integral".