Porque do trabalho em GRUPO?

A importância da socialização

A partir da interação com outras pessoas, as crianças se apropriam de signos de sua cultura e se modificam, aprendem a negociar e a compartilhar 
Julia Contier


Enquanto uma criança brinca, passeia, ouve uma contação de história ou até mesmo participa de uma refeição com outras pessoas, suas funções psicológicas são modificadas. A criança, no entanto, não recebe passivamente esses estímulos, mas atua sobre eles, modificando-os, e incorporando tais transformações na constituição de um plano interno que será a base de seu desenvolvimento. Desse modo, ter amigos, conversar, explorar o mundo e brincar com alguém, discutir, ou mesmo brigar com um companheiro, são situações fundamentais para o desenvolvimento infantil. 

De acordo com a concepção sócio-histórica elaborada a partir do trabalho do estudioso russo L.S.Vigotski, o desenvolvimento humano se cons- trói pela interpretação da criança, desde o nascimento, com outras pessoas, principalmente com aquelas envolvidas afetivamente e efetivamente em sua educação e cuidado, explica Zilma de Moraes Ramos de Oliveira, doutora em psicologia pela Universidade de São Paulo. 

Desenvolvimento potencial

Há tarefas que uma criança não é capaz de realizar sozinha, mas se torna capaz de realizar se alguém lhe der instruções, fizer uma demonstração, fornecer pistas. Como lembra Vigotski, para compreender adequadamente o desenvolvimento é preciso considerar não apenas o nível de desenvolvimento real da criança, mas também seu nível de desenvolvimento potencial, isto é, sua capacidade de desempenhar tarefas com a ajuda de adultos ou de companheiros mais capazes.

“O professor tem papel de mediador, devendo facilitar a aproximação entre as crianças. Deve saber elaborar propostas que podem ser compartilhadas e decidir sobre as práticas que devem ser apropriadas por todo o grupo. A organização de um ambiente propício a isso também é trabalho do professor”, explica a professora do ISE Vera Cruz Silvana Augusto. “Ele deve saber sobre os modos de comunicação próprios da faixa etária, reconhecer as singularidades do grupo de crianças, conhecer o nível de autonomia de cada uma, saber colocar desafios que imponham a elas a necessidade de relacionar-se e resolver problemas contando com a parceria de seus pares.” 

Olhar treinado

Na teoria do psicólogo francês Henri Wallon – outro pesquisador que se debruçou sobre o desenvolvimento infantil –, o professor que quer trabalhar com criança precisa entender de criança. Além dos estudos dos processos de desenvolvimento, deve ter uma característica de observador para conhecer o outro. “Somente um olhar treinado para não julgar, determinar ou concluir sobre o outro, como algo já conhecido e ‘dominado’, poderá fazer um bom educador”, afirma Beleni Saléte Grando, professora doutora em Educação.

“Ao conhecer os processos de desenvolvimento da criança, o professor estará ciente de qual fase ela se encontra, ou estágios de desenvolvimento e, com isso, melhor compreenderá como contribuir para que ela possa se desenvolver, já que este desenvolvimento passa, necessariamente pelo conflito e pela relação com o outro, inclusive com outras crianças”, diz Beleni. “Se o adulto está atento ao que ela está vivenciando, a partir dela mesma, poderá contribuir criando espaços de interação nos quais cada um possa se perceber e perceber o outro”, completa.